20110410

O Vinte E Três


Amanhã já não estás cá.




Hoje é Domingo e apreciamos o sabor de um fim de almoço num dia de sol, sem nuvens, com uma brisa suave de Verão à mistura. A luz agradável que entra pela sala realça os teus olhos e deixa no teu rosto uma bela sombra que acentua os teus traços. Dentro de mim cresce uma vontade de me levantar e abraçar-te, percorrer os teus braços com as minhas mãos amantes e deixar-te um beijo atrás da orelha. Faço-o na minha imaginação, enquanto olho para ti. Como é adorável a tua expressão quando te dás conta de que te admiro...

Tempo é o que nos falta, meu amor. Falta-nos tempo no mundo real, de preocupações e responsabilidades. Queriamos nós viver no interior de nós e voar além fronteiras. Temos que nos conformar com as distâncias que nos costumam separar e com as quais temos que viver.


Costumamos dizer "Pelo Bem Maior". Os sonhos nem sempre vivem de mão dada com as paixões. Queria tanto poder dedicar-me a nós neste fim de tarde azulado e roxo, mas tenho trabalho...

*

De repente, sinto que deixo ficar a papelada para trás, na mesa, e dirijo-me a ti. Beijamo-nos longamente. Ternamente insisto para que relaxes e esvazies a mente. Ponho a tua pele ao ar livre e massajo-te cada musculo do teu corpo, com individual devoção. Sorris e ao suspirares mostras que te estou a fazer um bem muito necessário. O teu corpo cansado pede mais do que serias capaz de admitir e, como eu bem sei, vou de encontro à tua necessidade sem que tenhas que o dizer.

Por fim, ficamos ali, sentados no sofá a ver uma comédia na televisão. A minha cabeça repousa no teu peito e o resto do meu corpo estende-se pelo sofá. Tu estás sentado de lado, com o braço direito por cima do meu ombro, fazendo-me festas na cintura com a mão.


De longe, oiço-te dizer Adeus. Sorris e olhas para a janela.


*





Acordo com um torcicolo. Já é quase hora de jantar e eu estou estendida em cima da secretária. Há folhas pelo chão à minha volta. Seguem-se aqueles segundos de confusão, característicos de quando o estado de dormência é interrompido. Porém, o luar a incidir no teu retrato aviva-me a alma. Já não estás cá. Deixaste-me adormecida, foste embora sem dizer Adeus. Não me acordaste, pois também tu adivinhas a minha necessidade de repousar. Sabemos que não é necessário dizer Adeus nem Até à próxima. Estamos sempre juntos.




Encosto-me relaxada para trás na cadeira e observo a noite durante uns minutos. Pelo canto do olho, reparo que o livro que tenho lido ultimamente está à beira da secretária, mantido aberto por algo que o impede de se fechar. Levanto-me e vou espreitar. Uma rosa. Vermelha. Não estás cá.


Nunca te esqueces que dia é hoje. E, assim, ficas sempre comigo...

20110402

A Reflexão


Seria possível passar anos e anos sem que naquele espelho surgisse um rosto? Caminhos e espinhos percorridos e sofridos para que nunca um rosto surgisse naquele espelho. Nunca!


Afinal, seria uma questão de perspectiva? Ou talvez a superfície, parecendo ela espelhada, fosse antes baça. Tão baça que mostrava unicamente uma silhueta distorcida. Um caos solitário aprisionado num universo enjaulado. Uma busca desenfreada por verdade, realismo e... um pouco de ternura. Apenas um pedaço infinitesimal de ternura que fosse. Nada!


Esperanças, esperas, fantasias e por fim a queda do pedestal. Uma vez e outra. E outra e mais outra. Tanto que ia sendo posto de reserva num cantinho, algures. Tanto que não poderia ser escavado por mãos indesejadas ou dito por lábios banhados no estrume. Não!


Planos e histórias que voavam pelo meio da loucura. Dias de sol e falso alento acumulados numa montanha de sentimentos. Possibilidades. Mas sempre à espera. Sempre tentando antecipar ou dominar, como que sendo um polvo com os seus oito braços, todos os peões no seu jogo. Vivendo somente no interior, pertencendo muito a si. Só a si. Haveria forma de atenuar o caos e vivenciar, por fim, alguma realidade térrea? Isto é, fisicamente e sentimentalmente todas as linhas dos infinitos livros que nunca escrevera?


*


Quem eu já conheci, jamais! Anseio que se abram as portas e por elas entre, finalmente!


*


Coisas acontecem sem que as controlemos. Melhor, controlamo-nos e elas acontecem! Acasos e probabilidades guiam-nos até onde estamos neste preciso momento, não é? Num mero rasgo de iluminação da alma é possível ter-se o vislumbre da tão aguardada teoria da unificação geral! Porém, compreendê-la-íamos se a tivéssemos? Saberíamos que tínhamos sequer tido esse vislumbre? Por vezes, vamos de encontro àquilo que mais ansiamos sem nos apercebermos disso! Esquecemo-nos que os nossos maiores desejos nem sempre se afiguram perante nós sob a forma que os imaginamos. E é assim que impedimos um belo pássaro livre de voar, porque a rede do nosso pensamento estava demasiado fechada.


*



Sabes que nos escapámos mutuamente imensas vezes. Dizem que "o que tem que ser tem muita força!", tu sabes. Já imaginaste se será possível um espelho reflectir o outro se estiverem paralelos frente a frente? O que teriam eles para reflectir senão cada um reflectir-se a si próprio, que por sua vez estava a reflectir o outro e a si próprio reflectindo o outro? Saberia cada espelho qual dos espelhos era? Já imaginaste? Claro que não imaginaste! O pensar em coisas tontas é a minha tarefa. A tua é fazer essas coisas tontas, não é? ...


*


Estou em frente àquele espelho.


Naquele espelho está o teu rosto.


É o meu rosto reflectindo o teu.

20100321

A Gracinha

'É mesmo tontinho...' pensava ela enquanto ia caminhando para se juntar a ele, no banco de jardim.
'Lá vem aquela chata!' pensou ele quando finalmente reparou que ela estava quase a chegar ao pé dele.

*

Permaneceram em silêncio, depois de um rápido 'Olá'. Então, muito a jeito de vergonha timida, ele falou:
'Olha lá, tu que és rapariga...'
'Que novidade, só agora é que reparaste que sou uma rapariga?' Berrou ela mais para o ar do que para ele 'Eu sabia...' acrescentou num sussurro inaudivel.
'Oh, sim... Quer dizer, nao! Claro que és uma rapariga, mas isso não importa nada...'
'Ah não!? Então se fosse um rapaz...' ia ela começar, mas ele calou-a de seguida:
'Chata! Se fosses um rapaz não serias tão chata, pronto!'

*

Ao fim de alguns e bastantes minutos de silêncio, mais uma vez, ele tentou ver-se livre do seu problema:
'Vá lá, preciso que tu, como RAPARIGA, me digas uma coisa! Mas é uma coisa secreta para um amigo meu, sim? Se ele sabe que ando a perguntar mata-me!'
'Hum, não sei, não sei... Quem é o amigo?' Perguntou ela com a curiosidade a cintilar no olhar. Seria realmente um amigo ou...?
'Não posso dizer! Bolas, pede-se uma ajudinha a uma rapariga e ela pede logo o mundo como preço! Irra! Chatas!' barafustou ele sentindo a frustração crescer um pouco por dentro.
'Ora, então para ajudar tenho que saber mais pormenores, não achas, rapaz tonto!?' Só lhe apetecia meter-se como ele. Queria saber mais, muito mais!
'Tonto!? Ainda por cima chamam-nos nomes! Odeio-te! Odeio raparigas...' murmurou ele entre dentes, de ombros descaidos em sinal de rendição.
'Ah, odeias... Bem, ok, se calhar é melhor eu ir andando. Lamento por não conseguir ajudar-te, então. Quer dizer, ajudar o teu amigo, enfim...' Claro que não estava ofendida, mas quando viu a expressão de desalento dele decidiu deixar as descobertas para mais tarde. Era melhor, talvez.

*

Unicamente quando ela já estava a uns 5 metros dele, é que ele resolveu ir atrás dela e voltar a tentar.
'Pronto, eu despacho-me!'
'Ah, viva! Assim já devo conseguir ajudar. Diz lá, então, o problema do... amigo!' Ela já sorria novamente. Era giro este jogo do quer e não quer. Do vai e não vai. Do mistério e da descoberta.
'Bem, é... Bom, é que, talvez... Olha ele tem, assim... Ele quer saber...' Ok, se calhar não conseguia perguntar-lhe, a ela!
'Hum... disseste que te ias despachar!' Como ela se ria por dentro!
'Ele quer saber o que tem que fazer para beijar uma rapariga!' Despachou-se ele, finalmente, quase aos berros.
'O quê!?' Tudo lhe passara pela cabeça. Tudo menos aquilo!
'É isso... Diz lá!'
'Isso não é assim! Quer dizer, primeiro tens que fazer a rapariga sorrir... E vão dar um passeio pelo jardim... E...' Que mais? Parece simples mas não é.
'Tanta coisa!? Chatas! Irra, mas como se faz uma rapariga sorrir assim de repente?... Achas que assim uma graça parva servia?' O coração dele batia tanto que ele temia que ela o ouvisse.
'Serve, se for uma boa graça parva, claro!' Soltou um risinho, mas não tinha bem a certeza que tal ideia resultasse mesmo.
'Então se eu disser uma gracinha assim parva mas mesmo boa achas que consigo beijar uma rapariga?' A confiança voltara!
'Assim tão depressa não, mas já é qualquer coisa, acho eu...'
'Hum, então acho que vou conseguir beijar a Jacinta, aquela que tem piolhos e assim uns dentes podres e é gorda como uma baleia!' Gritou ele com o maior sorriso do mundo e os braços no ar em sinal de vitória!
'Que horror!!' Só de pensar em tanto trabalho para beijar a Jacinta!

*

Ela virou as costas e correu em direcção a casa deixando-o rapidamente, tal era o horror.
'Que rapaz tão tontinho...' pensava ela enquanto corria sem olhar uma única vez para trás.
'Bolas!... Eu tinha a parte do jardim, mas parece que a gracinha parva não foi tão boa como eu pensava...' Disse ele para si mesmo vendo-a já longe.

Mas ela ria. Ria bastante por dentro, tal era o horror de gracinha!

20100224

A Descoberta

Não só o que temos em comum, mas também as diferenças tornam-No possível!

Isto é, poderiam torná-Lo possível...

É nisto que ela pensa e, apesar de O combater firmemente, perde a batalha, pois já lá vai tanto tempo, enfim.
Esta difícil batalha na qual luta na primeira fileira como uma heroína.
Tudo bem, até que de repente se questiona se vale a pena lutar!
Porquê lutar?
Sim! Porquê?
Lutar por algo tão normal e natural como... Tal!?
Esse tal It’s Oh so quiet?!

Suspira mentalmente e fita a paisagem lá fora.
O comboio segue calmamente, o que permite admirar as formas nas nuvens.
Não que alguma a lembre de Algo, mas o pensamento é redireccionado para a guerra, mais uma vez.
Era tão simples se a guerra fosse aberta, uma guerra de palavras onde ela pudesse falar e dizer Tudo!

Ah, mas não pode.
Pelo bem maior, não pode.
Mas quer tanto.
Voaria, libertar-se-ia.
Mas não pode...
Por agora!

*

Ainda vamos arrasar montanhas juntos, seja como for!
Continuarei a lutar silenciosamente se o bem maior prevalecer.
Porém, sorrirei abertamente para ti!
Se tiver vergonha de sorrir morrerei, pois vivo de sorrir!
Olhar-te-ei descontraidamente sem revelar quaisquer brilhos que te façam pensar...

Porque caíste no meu mundo como Lúcifer caiu do paraíso?
Rir-te-ias com esta comparação se a pudesses ler agora.
Estarias confuso, eu sei.
Eu? Como? Perguntar-te-ias.
Ahahah, adoro estes mistérios!
Tu és um pequeno e querido mistério, sabes?
Um mistério sobre o qual vivem camadas de desconhecido que penso começar a desvendar aos poucos.

Fala comigo... fala para mim.
Sinto-me bem a responder-te e a ouvir-te.
Essa tua simplicidade, nesse teu jeito de ser que pouco conheço, mas sobre o qual já adivinhei tanto.
E já vi coisas que jamais pensavas que visse.
E tudo digo, com naturalidade.
A verdade corre da mim como uma cascata.
Não me arrependo de o dizer, pois é real!
A felicidade de poder ser simples sem preocupações preenche-me.

Sei, também, que tens muito para dar e que és mais do que pareces ser!
Tu e esse teu quê de sombrio.
Que fosses o último rasgo de intuição nesta minha mente cansada...
Se não fores, não faz mal.
Recordar-te-ei com carinho!
Sempre.

*

Por vezes, mesmo nas mais duras batalhas, há momentos de fraqueza.
Permita-se à pobre moça tê-los também não é?
Porque ela vai continuar a tender para a conformação.
Que mais pode fazer por agora?
O bem maior é o seu lema...

*


Põe os clichés de lado, eles não prestam.
Alarga as fronteiras do teu mundo, tal como, sem querer, me ensinaste a fazer.
It is possible!

20091009

A Unificação

…e fracções de tempo e milhares de caminhos diferentes por elas criados entrelaçam-se continuamente na dimensão daquilo a que se chama vida. Uns preferem opinar que se trata única e exclusivamente do karman, outros que é devido ao “aconteceu” e à simplicidade do que tal possa significar…

*

Até que, mais uma vez, ao deparar-me com tantas figuras todas iguais, sentadas em lugares todos iguais e ostentando expressões todas iguais às de cada dia, sempre igual ao anterior, compreendo que, também eu, sou parte delas. No meio de tantas luzes que brilham nada se destacará à partida, todo vimos de pó estelar.

Oh, engano maldito, quando meus orbes cor de liana selvagem encontram tal perfeita projecção de IR2 em IR3 do mais intrínseco dos desejos do meu atormentado interior, percebo, então, que afinal Existe. Não é apenas Imaginário. Antes, o Imaginário é Real.

Fechando-me dentro da minha própria turbulência, procuro conforto nas palavras orientais tão repetidas e transformadas pela sépia do tempo, mas acabo distraída pelo barulho tecnológico do solo por baixo de mim que se desloca em movimento rectilíneo uniforme. Hipnotizante e reconfortante ruído que, assim, me impele a resistir à tortura da minha alma com derradeiras e impostas improbabilidades.

Minha mente só com os carris e meus olhos sós com a paisagem negra lá fora. Ali vamos numa parada silenciosa que não ousa mover-se em vão com medo de destoar em tal equilíbrio de forças.

*

Porque me olha. Porque me olha? Sinto-o. E também eu olho, agora.
*

Mas apenas o olhar não é projecção fiel do sonho em mim vivido em tempo onírico indefinível. Porém, nem tal abala meus pés e pernas que se movem agora para tão perto da origem das suas coordenadas cartesianas. Poderia tudo cair e eu não me importaria. Pode meu cabelo estar em desalinho, meus olhos cheios de sono, minha expressão de desagrado face à demora do resto do mundo. Apenas um vector, um vector de norma infinita separa as nossas dimensões. Não só as térreas, mas também as transcendentes. E face a probabilidades de valores que tendem mais rapidamente que a velocidade da luz para o singular zero, não resta mais nada que não seja o guardar preciosamente a memória.

Enfim, tal como linhas equipotenciais confinadas ao espaço onde está a carga que lhes dá origem, ali fica a inestimável projecção matemática fitando-me, a mim, qual campo eléctrico, a afastar-me lentamente, sem qualquer vontade de o fazer, rumo ao inalcançável.

*

Sonho tornado carne? Talvez, antes, Unicidade imaginária delineada no real…
Ah, e se o universo fosse, afinal, pulsante? E, assim, as probabilidades, tal como Deus, não jogassem aos dados com ele? Então eu…

Desculpe, mas é a pessoa mais impossivelmente bela que já vi…
.

20081223

O Legado

  • Quando vejo aquele casaco que gosto tanto, mas que tem tanto impacto no meio da multidão, penso duas vezes antes de o vestir.
  • Às vezes, vou para por ao pescoço aquele lenço berrante que adoro usar, mas acabo por pensar duas vezes antes de o fazer.
  • À chuva só consigo andar com aquelas botas que fazem 'toc-toc' e que são demais, mas, de novo, lá estou eu a pensar se as devo levar ou não.
  • Incontáveis vezes sinto algo apoderar-se de mim quando oiço a minha música favorita, algo que me incita a mexer-me ao som da música ou até a cantá-la, mas penso sempre duas vezes antes de o fazer.
  • Tantas vezes tenho uma vontade profunda de dizer o que realmente sinto e agir segundo a minha forma de ser, mesmo quando não é paropriado, mas penso duas vezes.
  • Penso sempre duas vezes antes de dizer a alguem acerca do meu carinho por tal.
Que Legado é este de pensar sempre antes de deixar que a verdadeira essência venha à superficie?
A vida é demasiado efemera para que não seja aproveitada fazendo aquilo de que se gosta, sendo o que se é e mostrando o que se sente!
Se gosto de viver. Por quê pensar duas vezes antes de ser feliz?
Eu nunca penso duas vezes nestas coisas.

20081219

A Dança

Deixem-me contar-vos uma história de arrepiar sobre algo que vi...


Uma noite caminhava eu junto à margem de um lago, um negro lago. Caminhava silenciosamente e admirava as estrelas através da atmosfera, tão límpida. Estava só.
Avancei em direcção ao lago e, à medida que sentia o frio invadir-me, encaminhava-me, cada vez mais, para um mergulho suave e eterno. Não queria saber de sensações, queria apenas lavar as mãos, o corpo, as ideias, a alma.
No entanto, sabia que não estava só, acompanhavam-me os esqueletos. Então, lembrei-me que não fechara o seu armário e, assim, todos eles fugiram, saltaram a janela da casa, partindo alguns ossos, e correram em liberdade, deixando bocados de carne putrefacta para trás. Poderia seguir os restos deles e saber para onde teriam ido, que caminho haveriam seguido se quisesse.
Mas, de novo, não me preocupei. Eram esqueletos e estavam mortos, pensava eu. Porém, sabia que estavam bem vivos na minha suja alma que, à força, tentava eu que o lago inundasse e, por fim, lavasse.
Por mais que me tentasse lavar, pior ficava. A água corrompida pelos meus actos escorria, mas regressava e voltava a preencher-me com eles e também com as memórias dos esqueletos amontoados no armário. Chegara a ter pena deles, ali, todos apertados e em posições inumanas de contorção. Mas como poderia eu tê-los de outra forma? Eram-me queridos, tinha-os armazenado com tanto afecto que os submetia àquilo para alimentar a minha vontade de os ter comigo para sempre.
E eles fugiram! Confiei neles para estarem quietos e ele fugiram. Seguiram-me!
Tremia de cima a baixo e de baixo acima. Que poderia fazer? Tinha a certeza de que se vinham vingar e levar-me para junto deles em direcção à tortura perpétua!
Fiquei quieta, esperei.
Eles chamaram-me e, não sabendo como, pois eles não falavam, senti o seu chamamento. E fui. Percorri um caminho desconhecido, sem destino, sem qualquer referência em direcção a uma clareira iluminada pela Lua. E lá estavam eles.
Moviam-se de um lado para o outro como que monges gregorianos entoando cânticos obscuros. Serenos e hipnotizantes, assim os adjectivei interiormente. À minha memória acorreram, naquele momento, num turbilhão louco, as imagens das suas figuras humanas e os seus últimos olhares. Não me emocionei, eles apenas me intrigavam. O que queriam?
Ao darem pela minha chegada, convidaram-me a juntar-me à sua dança. Rodando à volta de um caldeirão fumegante alimentado por chamas bestiais, senti a minha alma elevar-se e viajar por entre as estrelas. Era como um sonho, vi-me dos céus e ri-me do meu balançar ao ritmo de uma melodia inaudível.
O tempo contorceu-se e a Dança durou milénios. Todavia, a hora de voltar para casa chegara e, assim, fomos. Chegados a casa, entrámos num cortejo de morte, alegre morte.
Sem que proferisse qualquer ordem, vi-os calmamente entrar no armário e colocarem-se exactamente na mesma posição que os deixara antes de sair. Nisto, dei um gole na garrafa inacabada que deixara no quarto fitando a fechadura trancada e empoeirada à minha frente...

Até hoje não sei porque me deixaram eles ir, mas mal posso esperar por sonhar para dançar com os mortos.

20080910

O Poder

É possível depositar um pedaço de cristal numa caixinha de marfim e conservá-lo para sempre?
Mesmo quando o pedaço é, nada mais, nada menos, do que um estilhaço de coração?
Haverá alguma chave capaz de abrir a caixa e, por fim, devolve-lo?

O vento leva tudo pelos ares, mesmo os desejos profundos. Ele é capaz de correr longas distâncias e entregar os beijos apaixonados de dois amantes, de levar uma melodia até uma alma carente, de entregar um aroma sedutor a um sonhador.
Isto pode o vento, mas se eu quiser posso muito mais.

O fogo queima quase tudo, mesmo o sentimento mais enraizado. Ele é capaz de se expandir depressa nas florestas verdes e transformar tudo em cinzas, de levar o calor à pela arrepiada, de entregar uma luz de esperança a quem a quer manter acesa.
Isto pode o fogo, mas se eu quiser posso muito muito mais.

A terra sustenta tudo, mesmo as pernas trémulas de quem já esperou demais. Ela é capaz de percorrer o mundo num segundo pois dela ele é feito, de levar os mais desesperados até às suas profundezas, de entregar o abalado de paixão de um amor platónico.
Isto pode a terra, mas se eu quiser posso muito muito muito mais.

A água alimenta tudo, mesmo quem já é imortal. Ela é capaz de ultrapassar todos os obstáculos e trazer beleza por onde passa, de levar cartas dentro de garrafas até ao outro lado da margem, de entregar um coração náufrago a seu bom porto.
Isto pode a água, mas se eu quiser posso muito muito muito muito mais.

Ah, elementos da natureza, que tanto podem, mas que, afinal, não são a chave para abrir uma caixa e concertar um coração estilhaçado.
Essa tenho-a eu.
Isto posso eu, mas se eu quiser posso muito mais.

20080730

A Saudade

É triste como a mente pode ser uma armadilha sedutora, doce, mas cruel.

Há aqueles dias em que as pessoas saem de casa com vontade de enfrentar um dia de Sol de frente!
Mas depois há aqueles em que ficam em casa com medo de uma tempestade furiosa!

Hoje a saudade ficou em casa a observar as núvens a percorrer o céu. As suas viagens infinitas, nas quais se fundem umas com as outras e cada uma delas é tão efémera como a seguinte.
Imagina várias formas para elas, mas todos os contornos a lembram de alguém porque tem na mente uma melodia que não quer sair.
Seria bom se finalmente conseguisse esvaziar a sua mente cansada e a repousásse num leito de esperança e corações batendo por verdade.
Grande e forte pelas milhas que a separam do horizonte que fita, imagina como seria se os seus desejos se concretizássem, se não, deveriam, se não. Como queria de uma vez por todas acabar!

Teimando em ficar à janela saboreando o frio que a noite trouxe, mais uma vez, a saudade comanda e o olhar, fixo no horizonte, sofre o batimento rápido de um coração ansioso. Ansioso, mas confuso. Quer provar um pouco de ''fora-da-lei'' e sabe que só o conseguirá soltando-se, voando e perdendo-se num deserto pouco conhecido, mas quente e convidativo.

Ignora a noite, a melodia, a lembrança e tudo o resto. Dorme e, por fim, tem sonhos tranquilos...
Murmurou-me ao ouvido a Saudade.