20081223

O Legado

  • Quando vejo aquele casaco que gosto tanto, mas que tem tanto impacto no meio da multidão, penso duas vezes antes de o vestir.
  • Às vezes, vou para por ao pescoço aquele lenço berrante que adoro usar, mas acabo por pensar duas vezes antes de o fazer.
  • À chuva só consigo andar com aquelas botas que fazem 'toc-toc' e que são demais, mas, de novo, lá estou eu a pensar se as devo levar ou não.
  • Incontáveis vezes sinto algo apoderar-se de mim quando oiço a minha música favorita, algo que me incita a mexer-me ao som da música ou até a cantá-la, mas penso sempre duas vezes antes de o fazer.
  • Tantas vezes tenho uma vontade profunda de dizer o que realmente sinto e agir segundo a minha forma de ser, mesmo quando não é paropriado, mas penso duas vezes.
  • Penso sempre duas vezes antes de dizer a alguem acerca do meu carinho por tal.
Que Legado é este de pensar sempre antes de deixar que a verdadeira essência venha à superficie?
A vida é demasiado efemera para que não seja aproveitada fazendo aquilo de que se gosta, sendo o que se é e mostrando o que se sente!
Se gosto de viver. Por quê pensar duas vezes antes de ser feliz?
Eu nunca penso duas vezes nestas coisas.

20081219

A Dança

Deixem-me contar-vos uma história de arrepiar sobre algo que vi...


Uma noite caminhava eu junto à margem de um lago, um negro lago. Caminhava silenciosamente e admirava as estrelas através da atmosfera, tão límpida. Estava só.
Avancei em direcção ao lago e, à medida que sentia o frio invadir-me, encaminhava-me, cada vez mais, para um mergulho suave e eterno. Não queria saber de sensações, queria apenas lavar as mãos, o corpo, as ideias, a alma.
No entanto, sabia que não estava só, acompanhavam-me os esqueletos. Então, lembrei-me que não fechara o seu armário e, assim, todos eles fugiram, saltaram a janela da casa, partindo alguns ossos, e correram em liberdade, deixando bocados de carne putrefacta para trás. Poderia seguir os restos deles e saber para onde teriam ido, que caminho haveriam seguido se quisesse.
Mas, de novo, não me preocupei. Eram esqueletos e estavam mortos, pensava eu. Porém, sabia que estavam bem vivos na minha suja alma que, à força, tentava eu que o lago inundasse e, por fim, lavasse.
Por mais que me tentasse lavar, pior ficava. A água corrompida pelos meus actos escorria, mas regressava e voltava a preencher-me com eles e também com as memórias dos esqueletos amontoados no armário. Chegara a ter pena deles, ali, todos apertados e em posições inumanas de contorção. Mas como poderia eu tê-los de outra forma? Eram-me queridos, tinha-os armazenado com tanto afecto que os submetia àquilo para alimentar a minha vontade de os ter comigo para sempre.
E eles fugiram! Confiei neles para estarem quietos e ele fugiram. Seguiram-me!
Tremia de cima a baixo e de baixo acima. Que poderia fazer? Tinha a certeza de que se vinham vingar e levar-me para junto deles em direcção à tortura perpétua!
Fiquei quieta, esperei.
Eles chamaram-me e, não sabendo como, pois eles não falavam, senti o seu chamamento. E fui. Percorri um caminho desconhecido, sem destino, sem qualquer referência em direcção a uma clareira iluminada pela Lua. E lá estavam eles.
Moviam-se de um lado para o outro como que monges gregorianos entoando cânticos obscuros. Serenos e hipnotizantes, assim os adjectivei interiormente. À minha memória acorreram, naquele momento, num turbilhão louco, as imagens das suas figuras humanas e os seus últimos olhares. Não me emocionei, eles apenas me intrigavam. O que queriam?
Ao darem pela minha chegada, convidaram-me a juntar-me à sua dança. Rodando à volta de um caldeirão fumegante alimentado por chamas bestiais, senti a minha alma elevar-se e viajar por entre as estrelas. Era como um sonho, vi-me dos céus e ri-me do meu balançar ao ritmo de uma melodia inaudível.
O tempo contorceu-se e a Dança durou milénios. Todavia, a hora de voltar para casa chegara e, assim, fomos. Chegados a casa, entrámos num cortejo de morte, alegre morte.
Sem que proferisse qualquer ordem, vi-os calmamente entrar no armário e colocarem-se exactamente na mesma posição que os deixara antes de sair. Nisto, dei um gole na garrafa inacabada que deixara no quarto fitando a fechadura trancada e empoeirada à minha frente...

Até hoje não sei porque me deixaram eles ir, mas mal posso esperar por sonhar para dançar com os mortos.

20080910

O Poder

É possível depositar um pedaço de cristal numa caixinha de marfim e conservá-lo para sempre?
Mesmo quando o pedaço é, nada mais, nada menos, do que um estilhaço de coração?
Haverá alguma chave capaz de abrir a caixa e, por fim, devolve-lo?

O vento leva tudo pelos ares, mesmo os desejos profundos. Ele é capaz de correr longas distâncias e entregar os beijos apaixonados de dois amantes, de levar uma melodia até uma alma carente, de entregar um aroma sedutor a um sonhador.
Isto pode o vento, mas se eu quiser posso muito mais.

O fogo queima quase tudo, mesmo o sentimento mais enraizado. Ele é capaz de se expandir depressa nas florestas verdes e transformar tudo em cinzas, de levar o calor à pela arrepiada, de entregar uma luz de esperança a quem a quer manter acesa.
Isto pode o fogo, mas se eu quiser posso muito muito mais.

A terra sustenta tudo, mesmo as pernas trémulas de quem já esperou demais. Ela é capaz de percorrer o mundo num segundo pois dela ele é feito, de levar os mais desesperados até às suas profundezas, de entregar o abalado de paixão de um amor platónico.
Isto pode a terra, mas se eu quiser posso muito muito muito mais.

A água alimenta tudo, mesmo quem já é imortal. Ela é capaz de ultrapassar todos os obstáculos e trazer beleza por onde passa, de levar cartas dentro de garrafas até ao outro lado da margem, de entregar um coração náufrago a seu bom porto.
Isto pode a água, mas se eu quiser posso muito muito muito muito mais.

Ah, elementos da natureza, que tanto podem, mas que, afinal, não são a chave para abrir uma caixa e concertar um coração estilhaçado.
Essa tenho-a eu.
Isto posso eu, mas se eu quiser posso muito mais.

20080730

A Saudade

É triste como a mente pode ser uma armadilha sedutora, doce, mas cruel.

Há aqueles dias em que as pessoas saem de casa com vontade de enfrentar um dia de Sol de frente!
Mas depois há aqueles em que ficam em casa com medo de uma tempestade furiosa!

Hoje a saudade ficou em casa a observar as núvens a percorrer o céu. As suas viagens infinitas, nas quais se fundem umas com as outras e cada uma delas é tão efémera como a seguinte.
Imagina várias formas para elas, mas todos os contornos a lembram de alguém porque tem na mente uma melodia que não quer sair.
Seria bom se finalmente conseguisse esvaziar a sua mente cansada e a repousásse num leito de esperança e corações batendo por verdade.
Grande e forte pelas milhas que a separam do horizonte que fita, imagina como seria se os seus desejos se concretizássem, se não, deveriam, se não. Como queria de uma vez por todas acabar!

Teimando em ficar à janela saboreando o frio que a noite trouxe, mais uma vez, a saudade comanda e o olhar, fixo no horizonte, sofre o batimento rápido de um coração ansioso. Ansioso, mas confuso. Quer provar um pouco de ''fora-da-lei'' e sabe que só o conseguirá soltando-se, voando e perdendo-se num deserto pouco conhecido, mas quente e convidativo.

Ignora a noite, a melodia, a lembrança e tudo o resto. Dorme e, por fim, tem sonhos tranquilos...
Murmurou-me ao ouvido a Saudade.

20080728

A Melodia

Vejo o meu futuro quando olho nos teus olhos.
Com o teu amor fizeste o meu coração renascer.
Desvendaste todos os recantos da minha alma.
E tudo o que és me diz que desta vez é...
Para sempre...
É amor?
O que eu sinto?
Deve ser amor, o amor que tenho procurado.
É amor?
Ou estarei a sonhar?
Deve ser amor, pois...
Tem poder sobre mim...
Se pudesse voar pelo céu achas que o tempo passaria por mim?
Sabes que correria o mundo se te pudésse ver...
Esta noite...
Eu sou a guardiã do teu coração,
Fui mandada para cuidar da tua doçura.
Nunca irei esquecer o teu amor.
Nunca irei esquecer a luz que brilhou no teu olhar.
Deixa-me voar,
Deixa-me ser livre
Para estar contigo após esta vida.
Corre por entre os céus,
Deixa-me ver...
O Sol de novo...
Enquanto dormi criaste música para mim.
Em sonhos a tua presença me visitou.
Tua voz me chamou
E pronunciou o meu nome.
Quando voltar a sonhar de novo
Irei descobrir...
Estás sempre aqui...

20080516

A Voz

Segue-me para todo o lado.
Guia os meus passos e dá-me força.
Fascina-me, possui o dom natural para o fazer.
É-me intrinseco e componente principal da minha essência.
Está presente em tudo o que faço e deixa sempre sua marca.
Ajuda-me a melhorar e a ultrapassar todo e qualquer limite.
Fonte de alegria e alento, és tu.
Necessidade diária, tu és.
Algo sem o qual já não conseguiria viver.
Moldas-me a todo o momento, sou quem sou devido a ti.
Espantas-me, deixas-me a desejar mais e mais do que dás, nunca és suficiente.
Tens um segredo escondido atrás de outro, és sempre algo melhor e inovador.
Podes mudar a forma, mas nunca mudas o conteúdo.
Consegues enfeitar e ter nuances, mas a alma é a mesma.
Sou a única que te escuta...
Olhas através dos meus olhos e escreves pelas minhas palavras o que sinto.
Adivinhas o que quero ouvir e ofereces-me melhor ainda.
Igualar-te-ei a grandiosidade alguma vez?
Não ser como tu, antes ser contigo.
E pergunto: é possivel a perfeição?
É...
Deveras sublime!

20080422

A Alzheimer

A chave rodou incontáveis vezes.
O baú foi aberto.
Lá dentro repousam as teias que uma aranha foi fazendo ao longo dos anos.
A aranha morreu, o cadáver ficou.
Agora nada mais ocupa a caixa, a não ser o resto de algo.


Tudo se esfumou.
Acontecimentos, ocasiões, beijos, melodias, pinturas, esqueci tudo.
Não guardei uma única recordação da minha vida.
Para quê ter memórias se este viria a ser o meu destino?
Uma vida que pode nunca ter acontecido...

Alguém veio conversar comigo hoje.
Não sei quem era.
Quando lhe disse que não reconhecia a pessoa, começou a chorar.
Terei dito alguma asneira e não dei conta?
Já não me lembro.


Meus olhos abrem-se pela manhã.
Na mente fica a imagem da janela e dos comprimidos que atrasam.
Quando volto a olhar encaro a janela como se nunca ali estivesse estado.
O que é que atrasa?...
Atrasam o quê?...


Esqueci-me de fazer os trabalhos de casa e não dei de comer aos porcos!
Quando a minha mãe chegar vou ficar de castigo.

O meu pai foi preso pela PIDE ontem.
Mas Salazar não se comove com o nosso choro - disse minha mãe, chorando.

A minha filha foi a uma entrevista de emprego.
Está demorada, espero que se tenha saído bem.

Estou ansiosa por chegar à igreja.
O meu noivo deve estar tão bonito, mal posso esperar pela aliança e pela noite!

Rebentaram as águas, é agora!
Dói tanto, mas será o bebé mais bonito que alguma vez se viu.

Já procurei em todo o lado, onde meti as chaves?
Olha-as na minha mão!

Tive 13 no exame de matemática.

Mas o que é que eu vim buscar ao supermercado, afinal?

Mamã! O pai bateu-me com o sapato!

Filha, não te preocupes, encontras outro rapaz!

Onde está aquilo...

Como é que...

Quando...


Quem sou?
Já não me lembro.

20080415

O Estranho

Portas abriram-se para que uma melodia complexa entrasse na sala vazia.
Era a canção d'O Estranho.
Sem impedimentos, entrou pela porta adentro, rápida e suavemente.
Revolveu em cada canto da divisão escura e fria, trouxe-lhes a cor e o calor de Verão.

Lembranças de carinho e afecto emanavam na atmosfera da sala vazia.
Era o enaltecer da antiga glória.
As paredes descamavam memórias do passado, que a elas estava fortemente fixado.
Os restos que o tempo deixou corriam pelo solo, embrulhando-se constantemente.

Harmonias veio O Estranho avivar.
Pensamentos há muito enterrados veio ele destapar.
Uma voz, arrancada lá do fundo, conseguiu ele, então, fazer renascer.
Movendo-se calmamente, deixando a sua marca na divisão agora iluminada, deixou-se estar.

O Estranho veio para ficar.

20080411

A Porta

Amo-te. Há três, quatro anos que te amo!
E ele ficou em silêncio, porém, não queria que nada mudasse apesar do que disse.
O olhar dela era sereno, como se já estivesse à espera daquelas palavras.
O alívio e a leveza de alma tomaram conta dele.
Ela podia jurar que, depois de ter dito tais palavras, algo nele tinha mudado.
Ainda me amas?
Agora, como ele se sentia encurralado, teve que desviar o olhar.
Não. Foi a primeira vez que proferi estas palavras e isso libertou-me do seu sentimento.
Desta vez, apenas o olhar dela mudara.
Os dois ficaram em silêncio e olhando o que os rodeava.
Oh, eu vou sair, então...
Ele acenou mudamente e ela saiu pela porta.


Ele encostou-se suavemente à porta.
Estúpido, tu ama-la...
Mentindo com palavras, confessando a verdade com o olhar.


Ela repousou na parede, do lado de fora da casa, próximo da porta.
Estúpida, tu ama-lo...
Mentindo com acções, confessando com o silêncio.


Basta um abrir de uma Porta e...

20080410

O Sonho

Sinfonia,
Uma pintura,
O negro da noite e o brilho do dia.

Livre vou sendo tua,
No profundo da tua mente,
Suave e metafisicamente.

O Sonho vive,
É o desejo tornado carne ao fechar dos olhos,
Divino, esse, que na alma sobrevive.

Oh turbulência tua,
Acreditar na razão e na verdade,
Teus olhos vendo senão a insanidade.

Lua...
Tempo e sombra púrpura,
Nossa transcendência perpetua.