Deixem-me contar-vos uma história de arrepiar sobre algo que vi...
%5B1%5D.jpg)
Uma noite caminhava eu junto à margem de um lago, um negro lago. Caminhava silenciosamente e admirava as estrelas através da atmosfera, tão límpida. Estava só.
Avancei em direcção ao lago e, à medida que sentia o frio invadir-me, encaminhava-me, cada vez mais, para um mergulho suave e eterno. Não queria saber de sensações, queria apenas lavar as mãos, o corpo, as ideias, a alma.
No entanto, sabia que não estava só, acompanhavam-me os esqueletos. Então, lembrei-me que não fechara o seu armário e, assim, todos eles fugiram, saltaram a janela da casa, partindo alguns ossos, e correram em liberdade, deixando bocados de carne putrefacta para trás. Poderia seguir os restos deles e saber para onde teriam ido, que caminho haveriam seguido se quisesse.
Mas, de novo, não me preocupei. Eram esqueletos e estavam mortos, pensava eu. Porém, sabia que estavam bem vivos na minha suja alma que, à força, tentava eu que o lago inundasse e, por fim, lavasse.
Por mais que me tentasse lavar, pior ficava. A água corrompida pelos meus actos escorria, mas regressava e voltava a preencher-me com eles e também com as memórias dos esqueletos amontoados no armário. Chegara a ter pena deles, ali, todos apertados e em posições inumanas de contorção. Mas como poderia eu tê-los de outra forma? Eram-me queridos, tinha-os armazenado com tanto afecto que os submetia àquilo para alimentar a minha vontade de os ter comigo para sempre.
E eles fugiram! Confiei neles para estarem quietos e ele fugiram. Seguiram-me!
Tremia de cima a baixo e de baixo acima. Que poderia fazer? Tinha a certeza de que se vinham vingar e levar-me para junto deles em direcção à tortura perpétua!
Fiquei quieta, esperei.
Eles chamaram-me e, não sabendo como, pois eles não falavam, senti o seu chamamento. E fui. Percorri um caminho desconhecido, sem destino, sem qualquer referência em direcção a uma clareira iluminada pela Lua. E lá estavam eles.
Moviam-se de um lado para o outro como que monges gregorianos entoando cânticos obscuros. Serenos e hipnotizantes, assim os adjectivei interiormente. À minha memória acorreram, naquele momento, num turbilhão louco, as imagens das suas figuras humanas e os seus últimos olhares. Não me emocionei, eles apenas me intrigavam. O que queriam?
Ao darem pela minha chegada, convidaram-me a juntar-me à sua dança. Rodando à volta de um caldeirão fumegante alimentado por chamas bestiais, senti a minha alma elevar-se e viajar por entre as estrelas. Era como um sonho, vi-me dos céus e ri-me do meu balançar ao ritmo de uma melodia inaudível.
O tempo contorceu-se e a Dança durou milénios. Todavia, a hora de voltar para casa chegara e, assim, fomos. Chegados a casa, entrámos num cortejo de morte, alegre morte.
Sem que proferisse qualquer ordem, vi-os calmamente entrar no armário e colocarem-se exactamente na mesma posição que os deixara antes de sair. Nisto, dei um gole na garrafa inacabada que deixara no quarto fitando a fechadura trancada e empoeirada à minha frente...
Até hoje não sei porque me deixaram eles ir, mas mal posso esperar por sonhar para dançar com os mortos.
Sem comentários:
Enviar um comentário