20080422

A Alzheimer

A chave rodou incontáveis vezes.
O baú foi aberto.
Lá dentro repousam as teias que uma aranha foi fazendo ao longo dos anos.
A aranha morreu, o cadáver ficou.
Agora nada mais ocupa a caixa, a não ser o resto de algo.


Tudo se esfumou.
Acontecimentos, ocasiões, beijos, melodias, pinturas, esqueci tudo.
Não guardei uma única recordação da minha vida.
Para quê ter memórias se este viria a ser o meu destino?
Uma vida que pode nunca ter acontecido...

Alguém veio conversar comigo hoje.
Não sei quem era.
Quando lhe disse que não reconhecia a pessoa, começou a chorar.
Terei dito alguma asneira e não dei conta?
Já não me lembro.


Meus olhos abrem-se pela manhã.
Na mente fica a imagem da janela e dos comprimidos que atrasam.
Quando volto a olhar encaro a janela como se nunca ali estivesse estado.
O que é que atrasa?...
Atrasam o quê?...


Esqueci-me de fazer os trabalhos de casa e não dei de comer aos porcos!
Quando a minha mãe chegar vou ficar de castigo.

O meu pai foi preso pela PIDE ontem.
Mas Salazar não se comove com o nosso choro - disse minha mãe, chorando.

A minha filha foi a uma entrevista de emprego.
Está demorada, espero que se tenha saído bem.

Estou ansiosa por chegar à igreja.
O meu noivo deve estar tão bonito, mal posso esperar pela aliança e pela noite!

Rebentaram as águas, é agora!
Dói tanto, mas será o bebé mais bonito que alguma vez se viu.

Já procurei em todo o lado, onde meti as chaves?
Olha-as na minha mão!

Tive 13 no exame de matemática.

Mas o que é que eu vim buscar ao supermercado, afinal?

Mamã! O pai bateu-me com o sapato!

Filha, não te preocupes, encontras outro rapaz!

Onde está aquilo...

Como é que...

Quando...


Quem sou?
Já não me lembro.

Sem comentários: