20110402

A Reflexão


Seria possível passar anos e anos sem que naquele espelho surgisse um rosto? Caminhos e espinhos percorridos e sofridos para que nunca um rosto surgisse naquele espelho. Nunca!


Afinal, seria uma questão de perspectiva? Ou talvez a superfície, parecendo ela espelhada, fosse antes baça. Tão baça que mostrava unicamente uma silhueta distorcida. Um caos solitário aprisionado num universo enjaulado. Uma busca desenfreada por verdade, realismo e... um pouco de ternura. Apenas um pedaço infinitesimal de ternura que fosse. Nada!


Esperanças, esperas, fantasias e por fim a queda do pedestal. Uma vez e outra. E outra e mais outra. Tanto que ia sendo posto de reserva num cantinho, algures. Tanto que não poderia ser escavado por mãos indesejadas ou dito por lábios banhados no estrume. Não!


Planos e histórias que voavam pelo meio da loucura. Dias de sol e falso alento acumulados numa montanha de sentimentos. Possibilidades. Mas sempre à espera. Sempre tentando antecipar ou dominar, como que sendo um polvo com os seus oito braços, todos os peões no seu jogo. Vivendo somente no interior, pertencendo muito a si. Só a si. Haveria forma de atenuar o caos e vivenciar, por fim, alguma realidade térrea? Isto é, fisicamente e sentimentalmente todas as linhas dos infinitos livros que nunca escrevera?


*


Quem eu já conheci, jamais! Anseio que se abram as portas e por elas entre, finalmente!


*


Coisas acontecem sem que as controlemos. Melhor, controlamo-nos e elas acontecem! Acasos e probabilidades guiam-nos até onde estamos neste preciso momento, não é? Num mero rasgo de iluminação da alma é possível ter-se o vislumbre da tão aguardada teoria da unificação geral! Porém, compreendê-la-íamos se a tivéssemos? Saberíamos que tínhamos sequer tido esse vislumbre? Por vezes, vamos de encontro àquilo que mais ansiamos sem nos apercebermos disso! Esquecemo-nos que os nossos maiores desejos nem sempre se afiguram perante nós sob a forma que os imaginamos. E é assim que impedimos um belo pássaro livre de voar, porque a rede do nosso pensamento estava demasiado fechada.


*



Sabes que nos escapámos mutuamente imensas vezes. Dizem que "o que tem que ser tem muita força!", tu sabes. Já imaginaste se será possível um espelho reflectir o outro se estiverem paralelos frente a frente? O que teriam eles para reflectir senão cada um reflectir-se a si próprio, que por sua vez estava a reflectir o outro e a si próprio reflectindo o outro? Saberia cada espelho qual dos espelhos era? Já imaginaste? Claro que não imaginaste! O pensar em coisas tontas é a minha tarefa. A tua é fazer essas coisas tontas, não é? ...


*


Estou em frente àquele espelho.


Naquele espelho está o teu rosto.


É o meu rosto reflectindo o teu.

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