20091009

A Unificação

…e fracções de tempo e milhares de caminhos diferentes por elas criados entrelaçam-se continuamente na dimensão daquilo a que se chama vida. Uns preferem opinar que se trata única e exclusivamente do karman, outros que é devido ao “aconteceu” e à simplicidade do que tal possa significar…

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Até que, mais uma vez, ao deparar-me com tantas figuras todas iguais, sentadas em lugares todos iguais e ostentando expressões todas iguais às de cada dia, sempre igual ao anterior, compreendo que, também eu, sou parte delas. No meio de tantas luzes que brilham nada se destacará à partida, todo vimos de pó estelar.

Oh, engano maldito, quando meus orbes cor de liana selvagem encontram tal perfeita projecção de IR2 em IR3 do mais intrínseco dos desejos do meu atormentado interior, percebo, então, que afinal Existe. Não é apenas Imaginário. Antes, o Imaginário é Real.

Fechando-me dentro da minha própria turbulência, procuro conforto nas palavras orientais tão repetidas e transformadas pela sépia do tempo, mas acabo distraída pelo barulho tecnológico do solo por baixo de mim que se desloca em movimento rectilíneo uniforme. Hipnotizante e reconfortante ruído que, assim, me impele a resistir à tortura da minha alma com derradeiras e impostas improbabilidades.

Minha mente só com os carris e meus olhos sós com a paisagem negra lá fora. Ali vamos numa parada silenciosa que não ousa mover-se em vão com medo de destoar em tal equilíbrio de forças.

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Porque me olha. Porque me olha? Sinto-o. E também eu olho, agora.
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Mas apenas o olhar não é projecção fiel do sonho em mim vivido em tempo onírico indefinível. Porém, nem tal abala meus pés e pernas que se movem agora para tão perto da origem das suas coordenadas cartesianas. Poderia tudo cair e eu não me importaria. Pode meu cabelo estar em desalinho, meus olhos cheios de sono, minha expressão de desagrado face à demora do resto do mundo. Apenas um vector, um vector de norma infinita separa as nossas dimensões. Não só as térreas, mas também as transcendentes. E face a probabilidades de valores que tendem mais rapidamente que a velocidade da luz para o singular zero, não resta mais nada que não seja o guardar preciosamente a memória.

Enfim, tal como linhas equipotenciais confinadas ao espaço onde está a carga que lhes dá origem, ali fica a inestimável projecção matemática fitando-me, a mim, qual campo eléctrico, a afastar-me lentamente, sem qualquer vontade de o fazer, rumo ao inalcançável.

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Sonho tornado carne? Talvez, antes, Unicidade imaginária delineada no real…
Ah, e se o universo fosse, afinal, pulsante? E, assim, as probabilidades, tal como Deus, não jogassem aos dados com ele? Então eu…

Desculpe, mas é a pessoa mais impossivelmente bela que já vi…
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